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Não é segredo que gosto bastante da série Assassin´s Creed, ainda que tivesse esperado mais do final da história de Desmond. É uma série muito criticada por abusos de monetização, e pelo chamado "milking", termo utilizado pelos jogadores quando o ritmo de lançamento de títulos é demasiado rápido para a mesma PI, levando-os a ficar saturados das mecânicas. 

A questão é que se trata de uma série que vende muito. Porquê? Porque existe uma imensidão de fãs, que na verdade quer mais Assassin's Creed, apesar de sentirem que se estão a fartar de algumas coisas no jogo, e se calhar era melhor este descansar "porque eu não quero deixar de gostar". Seja como for, e da forma que estava, a série precisava de tempo. 

Tempo para os que acabaram um ou dois jogos e não querem continuar sem jogar todos. Aqueles que nunca começaram a série, mas também não querem saber porque são muitos jogos para jogar, e todos os anos sai um. Tempo para atrair novos jogadores. Com o final da série de Desmond, a Ubisoft ganhou a possibilidade de apostar numa certa frescura, apesar do IV à frente do nome indicar alguma continuidade. 

Assim, Assassin's Creed IV Black Flag é uma mistura de ideias novas com mecânicas antigas. Sim são os modelos de sempre, o mesmo banco de animações, a mesma capacidade trapezista e o mesmo combate de bloqueios "pedra-papel-tesoura", mas num cenário tropical, com um tom brilhante, e onde vestimos a pele do pirata Edward Kenway. Qualquer lembrança que o nome vos suscite, não é pura coincidência. 

Recapitulando, somos um tipo com o nível de progressão de um assassino, o código moral de um pirata, e temos o nosso próprio navio? Onde é que eu assino. Como pirata, muito das nossas aventuras será passada em alto mar, em combates com navios de diversos tamanhos, de várias civilizações. A Ubisoft pegou no sistema das batalhas navais de Assassin's Creed III, aprofundou-o e acrescentou ligeiras melhorias ao combate e à navegação. 

Navegar mar fora tinha tudo para ser uma experiência aborrecida, que desejássemos passar à frente, mas de alguma forma mágica, sempre que voltamos a alto mar há um espírito aventureiro que se apodera de nós. A contribuir para esta atmosfera estão os cânticos piratas que a nossa tripulação tão bravamente entoa, não sei qual é a autenticidade destas cancões, mas vou cantarola-las nos próximos dias certamente. 

Depois, a experiência de ter um navio gigante à mercê das ondas é algo que nunca tinha feito num videojogo, certamente não nesta dimensão. Nunca que o oceano foi recriado desta forma tão realista, desde o aspeto visual, ao comportamento físico do mar. Em situação de tempestade, a dimensão das ondas quase faz o barco virar, faz-nos pequenos perante o poder da natureza, em contraste com a sensação de imponência que temos em águas ténues. 

"Existe uma imensidão de fãs, que na verdade quer mais Assassin's Creed" 
É exatamente pelas batalhas em alto mar que o jogo se apresenta, de alguma forma a equipa de produção achou que o melhor era começar por educar o jogador neste campo, com uma batalha genérica que nos apresenta o protagonista como um pirata náufrago, mas já com habilidades superiores e difíceis de justificar tendo em conta os seus relacionamentos. 

Edward é o seu nome, mas a sua linhagem não é nova, há um elemento de familiaridade nele. A caracterização sempre foi um dos fortes da série, Black Flag não é o melhor trabalho da Ubisoft neste campo, mas rapidamente se vão render à personalidade livre e mercenária de Kenway. É o mais "bronco" e agressivo dos protagonistas da série (aparentemente o neto saiu ao avô), ficando a nosso cargo descobrir se há mais propósito para Kenway que o simples brilho do ouro. 

Já no futuro, algures no outro lado da tecnologia do Animus, temos outra ordem de interesses. Sem me alongar sobre esta parte dual da história, já norma na série, não resisto em lembrar o que todos sabem por agora, o novo sujeito é um caso especial por representar uma ligação à já conhecida história de um dos antepassados de Desmond, percebe-se por isso o interesse da Abstergo, que parece ter virado para o entretenimento. 

A presença de "cutscenes" é constante, incluindo "flashbacks" da vida anterior de Edward Kenway, que nos vão dando contexto aos pedaços. Julgo que a apresentação do ambiente é muito boa, a do protagonista nem por isso. Passando esta parte, mergulhamos no convívio entre piratas e indigentes, representados por um aspeto sujo e linguagem própria que tornam a vida nas Caraíbas credível e nos faz querer crescer com o jogo. 

O aspeto das ilhas é o que poderíamos esperar, cenários paradisíacos, onde a navegação retira muito do que Assassin's Creed III nos trouxe. Existe maior sensação de liberdade agora que o elemento naval tem a mesma preponderância que as ações em terra, sendo que a navegação pelo mar é um dos pontos mais altos do jogo, com orcas gigantes a saltar, gaivotas a rodear as costas e a imensidão do mar no horizonte. 


Tecnicamente tem o selo de qualidade da série, mas não se livra do clássico problema da falta de polimento. Acontece quase sempre na primeira versão retail dos jogos de lançamento anual, e ainda que não dê muita importância a estes pormenores, ainda fui presenteado com texturas sobrepostas, fiquei preso numa parede, ultrapassei cordas como se fosse invisível, e ainda vi uma mulher desaparecer por magia perante os meus olhos. 

Além das cidades principais Kingston, Havana e Nassau, existem montes de outros pontos de interesse, aproximando este Assassin's Creed de um verdadeiro "sandbox". Temos fortes, ruínas, cavernas, estruturas Maia, pequenas vilas, assim como uma imensidão de mar para explorar e muito que pilhar. Os confrontos com navios Espanhóis e Ingleses permitem utilizar um conjunto novo de truques, disparos frontais, laterais, atirar barris de pólvora aos mares, investidas, mas o charme dos confrontos desvanece-se rapidamente, neste campo, e por mais surpreendente que seja, a navegação continua rainha. 

É um jogo tão dividido, que o próprio sistema de progressão funciona em duas áreas distintas, Edward, o assassino pirata, e Jackdaw, o navio. Nos dois sistemas a Ubisoft aplicou aquilo que aprendeu em experiências passadas, e não apenas na série Assassin's Creed. As peles dos animais servem de matéria-prima para criar formas de armazenamento, tal como em Far Cry 3. Já os melhoramentos ao navio pirata, permitem torná-lo cada vez mais temível, estou certo que fantasiaram com isso a certa altura. 

Tudo isto gira à volta de uma coisa simples, o dinheiro. Que mais podia ser quando falamos de piratas? O progresso das partes do barco, das armas e fatos de Edward requerem dinheiro, e se não gostarem da vida de caça, as peles dos animais também podem ser comprados. Tudo isto é facilmente acessível na cabine do comandante, a nossa cabine. Há um charme especial em percorrer um sandbox com um navio como "Hub", uma bandeira preta hasteada e um óculo em punho em busca de novas conquistas. 

Os objetivos secundários envolvem coisas como perseguir notas de música, procurar tesouros, recrutar tripulação, caçar, desbloquear sincronizações, organizar a frota ou aceitar contratos nas gaiolas dos pombos. Como sempre é agradável estar perdido em Assassin's Creed, qualquer ponto do mapa é capaz de nos distrair da linha principal. Depois, rapidamente o jogo nos impõe aquela sensação de querer estar à frente do conteúdo principal, fazendo-nos procurar por vários tipos de atividades. 

O modo online é sempre muito popular pela altura do lançamento de um novo Assassin's Creed, e aqui a Ubisoft também optou por jogar pelo seguro, mantendo a estrutura base. Black Flag traz os modos competitivos e cooperativos dos jogos anteriores, incluindo o Wolfpack, e como é habitual, novos personagens, localizações e formas de abordar as partidas. A inclusão do GameLab é, no entanto, o principal atrativo, a possibilidade de criar as próprias regras dentro de um número ridículo de parâmetros é uma adição interessante, que vai permitir maior especialização, e filtragem ao próprio modo. 

Não sei se descansar no próximo ano era o melhor para a série, acho que seria um bom momento para isso, até porque a Ubisoft tem grandes projetos na calha, alguns que precisarão de trabalho redobrado na sua fase final (estou a pensar em Tom Clancy's: The Division). Apesar do lançamento anual, a Ubisoft consegue sempre dar alguma frescura à série, no ano passado foram os cenários naturais, este ano o tema e tom do mundo das Caraíbas. Tudo o que gostamos em Assassin's Creed, aliado à vida de um comandante pirata? Sim, obrigado.

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